Galileu Galilei

(See the English version)

Na descrição mais ampla sobre o que fez e sua importância para a humanidade, não é feito jus a um dos seus primeiros trabalhos, sobre a Medição do Tamanho do Inferno segundo Dante, que, aliás, Einstein ja havia citado em 1954, no seu livro Ideias e Opiniões, pagina 251, e eu o cito:

“Propostas feitas por meios puramente lógicos são completamente vazias quanto à realidade. Porque Galileu percebeu isso, e particularmente porque ele introduziu isto no mundo científico, ele é o pai da física moderna – de fato, da ciência moderna conjuntamente”.

Jean-Marc Lévy-Leblond, no seu artigo Galilée, de l’Enfer de Dante au purgatoire de la science   explica em detalhes porque Einstein disse isto e relata uma interessante historia do envolvimento de Galileu com o Inferno de Dante,

“A pura língua toscana”

Claro, não se tratava de forma alguma, nem no início do século XVI para Manetti ou
Vellutello e seus leitores, nem no final deste mesmo século para Galileu e seus ouvintes, de levar a sério a descrição de Dante do ponto de vista teológico. Simplesmente, a importância da Divina Comédia na cultura toscana tinha necessidade de comentar sobre isso e compreendê-lo em todos os seus aspectos – Incluindo dados topográficos, de modo a facilitar sua leitura (5).
Com a demonstração de suas habilidades matemáticas pessoais, Galileo tinha, certamente, em suas lições, uma maior ambição cultural. O seu treinamento dentro da elite da cidade de Pisa lhe havia dado uma excelente formação literária, artística e musical (seu pai, Vincenzo Galilei foi um dos primeiros músicos de seu tempo,
amigo de Monteverdi,  seu irmão também seria instrumentista e compositor). Galileu iria se envolver profundamente nos debates literários e artísticos de seu tempo, aos quais ele contribuiu vigorosamente nos anos que seguem às suas Lições Sobre o Inferno. (nota 1 REC) ao participar das ferozes controvérsias entre os partidários de Ariosto e Tasso, quanto aos  méritos comparativos da pintura e da escultura (6). Mas os Toscanos cultos, como os que formaram a Academia Florentina, estavam, obviamente, longe de possuir conhecimento científico e matemático, em particular os do jovem Galileu. Se a nova ciência emergisse, como Galileu ofereceu o exemplo emblemático dela, desde as profundezas da cultura de seu tempo, os portadores desta cultura poderiam reconhecer e assimilar espontaneamente esse cirurgião (que separou a Ciencia da Religião). E, de fato, a sequencia dos séculos iria conhecer o divórcio progressivo entre ciência e a cultura de que nosso tempo é vítima (7).

Talvez ciente desse risco, Galileo queria de qualquer maneira mostrar em suas Lições sobre o Inferno que a física e a matemática não são simplesmente provedores de cálculos tecnicamente eficientes, mas podem contribuir para os debates culturais mais nobres, e com isto adquirir um status intelectual comparável ao das humanidades clássicas.

É neste contexto que devemos compreender porque Galileu recorreu à lingua italiana e não ao latim, para a maior parte de suas grandes obras – é o caso do Dialogo e dos Discursos, sem falar do Saggiatore. A importância desta decisão tem sido corretamente enfatizada. Mas não é, como se costuma dizer,  uma escolha essencialmente política pela qual Galileu estaria visando um público mais amplo do que seus eruditos pares afim de obter apoio nas suas batalhas intelectuais.

Na verdade, Galileu não considera o italiano (que, nesta época era na verdade o toscano) como lingua vulgarizada,  que seria necessario, de bom ou malgrado entendida por todos. Para ele, esse é o idioma da alta cultura do seu tempo, o qual, ao mesmo tempo, permite a maior claridade e a maior sutileza de expressão. E é o latim, pelo contrário, que ele considera sem complacência como um jargão técnico, sem dúvida, útil entre as pessoas do meio, mas impróprio para a elucidação de significado. As lições sobre o Inferno são perfeitamente reveladoras e inaugurais. Forçado a usar termos científicos em suas explicações científicas, Galileu se justifica e até mesmo pede desculpas aos membros da Academia Florentina:

“… espero que seus ouvidos, acostumados a ouvir esse lugar, sempre ressoem as palavras escolhidas e ilustres que a pura língua toscana nos oferece, possamos nós nos perdoar quando às vezes estes ouvidos se sintam ofendidos por alguma palavra ou termo peculiar ao domínio do qual estamos tratando, e extraído da língua grega ou latina, já que o assunto que abordamos obriga-se a fazê-lo. ”

Em outras palavras, nestas Lições, o uso da “linguagem toscana pura” em detrimento
da língua latina formal não é, de modo algum, um compromisso destinado a ser compreendido por uma ampla audiência, mas sim a escolha positiva da linguagem viva e cultivada pela sua audiência. Compreendemos melhor isso levando em conta que, mesmo em suas grandes obras cientificas, a decisão de Galileu de escrever em italiano é muito mais do que uma manobra tática de “comunicação”, como se diria hoje, mas
expressa o firme desejo de colocar seu trabalho na cultura de sua sociedade e do seu
tempo. Note-se, além disso, que Galileu não é um caso isolado. Contrariamente à concepção generalizada mais simplista, a Revolução Científica do século XVII não se trata apenas a questão da existência de uma linguagem cientifica única, no caso, o Latim. Muito pelo contrario, coincide com o desenvolvimento, no seio das mais exigentes atividades intelectuais, das línguas nacionais, agora consideradas como vetores da cultura moderna. Na Itália, já mencionado, Guidobaldo del Monte, teve em 1585, apenas dois anos antes das Lições do Inferno,  uma publicação sobre mecânica em Latim e Toscano. Durante a primeira metade do século XVII, que viu a ocorrência da
Revolução científica, Descartes para em Francês, Harvey em Inglês, e Leeuwenhoek no Holandês, oferece exemplos convincentes da legitimação das línguas nacionais (8) (nota 2 REC)

nota 5  Les plans et mesures de l’Enfer et leur iconographie constituent toujours un thème de l’exégèse littéraire de l’œuvre de Dante ; voir G. Agnelli, Topo-cronografia del Viaggio dantesco, Hoepli, Milano, 1891 ; S. Orlando, « Geografia dell’Oltretomba dantesco», in Coll., Guida alla Commedia, Milano 1993.)

(6) Voir la préface de Lucette Degryse ci-dessus, l’essai d’Erwin Panofsky, Galilée, critique d’art (traduction et présentation de Nathalie Heinich), Les Impressions Nouvelles, 1993, ainsi que l’article de Françoise Raffin, « Vision métaphorique et conception mathématique de la nature : Galiléee, lecteur du Tasse », Chroniques italiennes, n°29 (1), 1992.

(7) Jean-Marc Lévy-Leblond, La science en mal de culture, Futuribles, 2004.

(8) Jean-Marc Lévy-Leblond, « La langue tire la science », in La pierre de touche (La science à l’épreuve), Gallimard (“Folio-Essais”), 1996, pp. 228-251

(nota 1 de Roque E.Campos)  Existe uma dificuldade para tratar destes assuntos em nosso idioma e o uso do Inglês e outras linguas aqui ocorre por necessidade. A tradução eventual dos textos utilizados esbarra nas minhas limitações de tempo e no desejo de apresentar, ao menos inicialmente, um conjunto que faça algum sentido. Gostaria de acrescentar à próxima nota, ao fim do ultimo paragrafo e ao conceito ali expresso que o Latim moderno é o Inglês. Quinhentos anos depois de Galileu e seus compatriotas, nossa comunidade intelectualizada não tem pelo nosso vernáculo o mesmo respeito e intenção  que Galileu e seus compatriotas tinham pelo nascente Italiano. Não sei o que pensar sobre a tese que deu motivação e partida para este trabalho, pois é feita em Italiano apenas. Todos alunos brasileiros que fazem doutorado (Mestrado não dá bolsa lá fora)  defendem suas teses na lingua do pais que os acolhe. Na USP existe uma interessante tese sobre os franceses fazendo doutorado aqui e não dá para entender porque um aluno brasileiro, estudando numa Instituição brasileira, defende uma tese em italiano.

(nota 2 REC)Esta dissertação de Jean-Marc Lévy-Leblond praticamente se define nesta introdução e está disponível acima, para quem entende Francês, autorizado por ele, a quem eu solicitei este “paper” que não esta disponível na Internet. A partir dai ele detalha o raciocínio de Galileu, iniciando num confronto com Velutello e Manetti, introduzindo Newton, discutindo noções de Geometria, Física e Matemática, que deixam, a meu ver, um pouco “esotérico”, isto é para iniciados e um pouco cansativo e pouco compreensível para o normal das pessoas.  Na perspectiva de abertura, na sequencia, eu discuto o contexto e o que importa em tudo isto. Veja a continuação em:

Perspectivas

 

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