Por que Comedia

(See it in English)

O trabalho de Dante se chama A Divina Comedia.

Como se vê no verbete, é Comedia porque termina bem e Divina foi acréscimo posterior. Se terminasse mal seria tragédia. É uma das maiores obras da literatura mundial, tanto de valor como fisicamente… Existem longas descrições de horrores inimagináveis, com uma prolixa menção de personagens de evidência na época alem de amigos e inimigos de Dante, todos obscuros para nossa cultura atual. Dante articula tudo em trilogia e a obra constituí-se de três mundos : Inferno, Purgatório e Paraíso. Ele faz uma viagem por estes três mundos, sendo a primeira, Inferno, descrita no filme de 1920 apresentado inicialmente.

O Inferno é a estrela, de maior ressonância cultural, sendo que a palavra em Inglês automaticamente indica que é o de Dante. Para nós, que temos uma lingua irmã do Italiano, é igual, isto é, Inferno sempre foi e será Inferno. Pesquisei a Internet e, alem do que esta no site da Universidade do Texas,  da Columbia University, e o trabalho de Helder Rocha , o melhor resumo para dar uma perspectiva sobre a Divina Comédia, esta em  espanhol neste blog  que não é problema para nós entendermos. Tiro dali, para um exame rápido, as imagens:infierno

purgatorio

el-paraiso-mas-grande

Voltando ao Inferno, a comunicação pela palavra escrita é sempre demorada e infelizmente não temos para o Inferno de Dante o equivalente à Biblia impressa que é uma Catedral Gótica contendo toda a Biblia visualmente. Na falta disto, a melhor imagem que localizei foi esta, que deve ser examinada conjuntamente com a do blog espanhol e que se puder ser ampliada de alguma forma, é surpreendente:

inferno-map-3200

A melhor sumarização que encontrei esta em Inglês, no youtube, que pode ser vista com subtitulos (clicando no canto esquerdo, na roda dentada da tela) e está em:

Classics Summarized: Dante’s Inferno

O significado de sua obra sempre é um assunto controverso, mas o proprio Dante nos indica o que ele queria, logo na abertura. Ele era casado, mas sua musa era Beatriz, que ele considerava sua alma gêmea e que estava no Céu. Para encontrá-la ele teria que arrojar-se pelos caminhos do Inferno, passando pelo Purgatório. Para isto, ele teria morrido para uma vida interior e nasceria desta forma para uma vida nova. O grande axioma que provem disto é : Morrer para renascer.

Isto tambem significa que ele estava tendo uma crise do meio da vida, cujas implicações emocionais serão deixadas de lado e a discussão será orientada para as alterações de percepção da realidade que ocorrem nestas crises. Apenas para justificar o ponto que não pretendo discutir, cito o primeiro canto do Inferno: (o verbete adoça a pilula, mas ele estava mesmo era tendo um ataque de  Concupiscência):

“Nel mezzo del camin de nostra vita
Mi ritrovai per una selva oscura,
Che la diritta via era smarrita”

No meio do caminho de nossa vida
Encontrei-me em uma selva escura,
por ter perdido a verdadeira estrada.

Voltando à outra face da Lua:

Acontece que, como muito bem estabelece a mitologia Grega, as Musas são simbolo da Inteligência e da Sabedoria. Este assunto perde-se na noite dos tempos em todas as culturas, e no caso do Cristianismo, passaram a usar as Musas para representar a Sabedoria e o Espirito Santo. Em Proverbios 8:1 aparece a apropriação plena do conceito. A Sabedoria na noite dos tempos.

Hagia Sophia

Na introdução da Divina Comedia, em La Vita Nuova, com poesias dedicadas a Beatriz, ele não apenas exibe enorme erudição, como uma prosa que indica que o nascente Italiano tinha condições de extrema sofisticação:

“O voi che avete gl’intelletti sani,
Mirati la dottrina che s’asconde
Sotto il velame delli versi strani!”

Traduzindo:

Ó vós que tendes intelectos sãos,
Vede a doutrina que se esconde
Sob p véu dos versos estranhos!

A partir dai, ele faz uma curiosa afirmação, que sua obra e todas as escrituras, incluindo as sagradas, podem ser compreendidas e explicadas segundo quatro intepretações e que elas não se destroem mutuamente, e, sim, são complementares e harmonicas, formando seu conjunto uma síntese. Dos estudos da era Medieval, duas enciclopedias se sobressaem, talvez como a melhor fonte para situar isto:

Lexikon des mittel Alters

Dictionary of the Middle Ages

As alegorias medievais tipicamente, cf. estes dicionarios tinham quatro aspectos:

  1. The first is simply the literal interpretation of the events of the story for historical purposes with no underlying meaning.
  2. The second is called typological: it connects the events of the Old Testament with the New Testament; in particular drawing allegorical connections between the events of Christ’s life with the stories of the Old Testament.
  3. The third is moral (or tropological), which is how one should act in the present, the “moral of the story”.
  4. The fourth type of interpretation is anagogical, dealing with the future events of Christian history, heaven, hell, the last judgment; it deals with prophecies.

No caso da Divina Comedia, os comentaristas normalmente indicam três aspectos:

  • O relato poético-literário
  • O sentido psico-filosófico-teológico
  • O sentido politico-social

O quarto sentido seria a Sabedoria, no que tem de metafisico e se perdeu por uma boa razão: é iniciático, isto é requer iniciação, e envolvem conceitos que datam desde o paganismo ou anteriores, suas variações através de sabedorias ditas “ocultas”. Estes saberes visavam, ou visam, para quem ainda os pratica, como os Maçons, Rosacruzes, Kabala, etc., a Sabedoria, que não é conhecimento e Inteligência, mas saber julgar. Não existia Ciência para Dante se apoiar. Galileu iria demorar 320 anos para usar seu texto e dar ao mundo uma forma cientifica de comprender o Universo, como foi explicado na Introdução deste trabalho. O problema é que como para a Ciencia Moderna, qualquer filosofia, esoterismo, ciencias ocultas, o ser humano quer saber o que vai acontecer, ou qual o resultado de fazer isto ou aquilo. O ocultismo envolve previsão do futuro e adivinhação, que por razões óbvias, é condenavel. Os sistemas de pensamento humanos não são nem nunca foram cortados preto e branco, e demorou muito tempo para chegarmos como é hoje, razoavelmente determinado o que é “verdadeiro” ou o que é “falso”, se é que chegamos. Está entre aspas porque na verdade, seja ciência, seja religião, nós temos tendência para distinguir o que é “bom” do que é “ruim”. A Biblia e as religiões que nela se apoiam condenam magia de qualquer natureza, incluindo adivinhação e previsão do futuro. O saber que se dedica a isto tornou-se, por esta razão, “oculto”. Claro que impulsionados pelo Santo Oficio que mandava para a fogueira quem discordasse de Roma.

Mas Dante não seria Dante se fosse supersticioso e ele foi bem mais sutil do que parece à primeira vista. Sua sabedoria ficou gravada e será eternamente válida, mas para percebê-la, temos que entrar no simbolismo envolvido, segundo os criterios da época. E, irá aparecer sua genialidade, que continua uma sabedoria válida à luz do avanço que a humanidade teve nos 500 anos que nos separam dele.

Dante era católico, e o simbolimo católico nele é gritante. Mas o cristianismo não só incorporou as sabedorias mais antigas, inclusive e especialmente a pagã, como tambem foi mudando, inclusive havendo estudos que indicam que Dante estava coerente com S.Tomas de Aquino, que o precedeu e teve influencia em seu trabalho.

Aliás como aparece no seu encontro com ele no Paraíso, Canto X, 94-148

Fica extenso e fora do propósito deste trabalho entrar nos detalhes contidos nos livros acima, ou no que querem os esotericos e as sociedades ocultas, e vamos ficar com o cristianismo. No cristianismo medieval ficou estabelecido a imortalidade da alma e que cada pessoa é julgada perante Deus pelos atos praticados em uma unica existência terrestre. Os bons serão recompensados (céu) e os maus condenados (inferno). Isto irá ocorrer num julgamento universal ao fim do mundo, apos uma ressurreição corporal. Os cristãos modernos não parecem se dar mais conta disto e os inumeros concilios que discutiram a escatologia nunca conseguiu lançar luz sobre este polêmico tema. Hoje, e ja a partir do seculo XX, a Teologia predominante parece que aceita o velho trinomio (purgatorio-inferno-paraiso) como estados da alma. Os estados da alma resultantes de uma vida dependem de como ela foi vivida, sendo o inferno, por exemplo,consequencia de mau uso da liberdade existencial, que com fé ou sem fé, sempre redunda em estagnação. Aliás uma noção importantíssima para entendermos isto provem da ideia que os judeus fazer sobre tudo isto: Eles acreditam na eternidade da alma e numa ressurreição, mas são impermeaveis à noção de Purgatorio, Inferno e Paraiso! Este fato é muito interessante e merece uma digressão, pois aparentemente, foi Dante o grande promotor da ideia na forma como chegou até nós. A situação é a seguinte:

As traduções para o Latim não diferenciavam as noções contidas nos textos originais sobre Sheol, Hades e Geena, tudo traduzido como Inferno.

Examinando o Dicionario de Palavras do Antigo e Novo Testamento, verificamos que o  uso de “inferno” para traduzir as palavras originais do hebraico Sheol e do grego Hades Hades . . . Corresponde a Sheol no Antigo Testamento. Na Versão Autorizada do Antigo Testamento e do Novo  Testamento, foi vertido de modo infeliz por Inferno.

Enciclopédia da Collier diz a respeito de “inferno”: Primeiro representa o hebraico Sheol do Antigo Testamento, e o grego Hades, da Septuaginta e do Novo Testamento. Visto que Sheol, nos tempos do Antigo Testamento, se referia simplesmente à habitação dos mortos e não sugeria distinções morais, a palavra ‘inferno’, conforme entendida atualmente, não é uma tradução feliz.[10]

Webster’s Third New International Dictionary diz: Devido ao entendimento atual da palavra inferno, do Latim Infernus é que ela constitui uma maneira infeliz de verter estas palavras bíblicas originais. A palavra inferno não transmitia assim, originalmente, nenhuma ideia de calor ou de tormento, mas simplesmente de um lugar coberto ou oculto (de . . . helan, esconder).[11]

The Encyclopedia Americana diz: Muita confusão e muitos mal-entendidos foram causados pelo fato de os primitivos tradutores da Bíblia terem traduzido persistentemente o hebraico Seol e o grego Hades e Geena pela palavra inferno. A simples transliteração destas palavras por parte dos tradutores das edições revistas da Bíblia não bastou para eliminar apreciavelmente esta confusão e equívoco.[12]

O significado atribuído à palavra “inferno” atualmente é o representado em A Divina Comédia de Dante[13], e no Paraíso Perdido, de Milton[14], significado este completamente alheio à definição original da palavra. A ideia dum inferno de tormento ardente, porém, remonta a uma época muito anterior a Dante ou a Milton.

Influência de Dante no Paraíso Perdido

E assim, chegamos ao Inferno de Dante… Vejamos antes_

Simbolismo envolvido

 

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