O Mal no Mundo Clássico

(See it in English)

Nota: Novamente aqui somos penalizados pela não existencia de bons artigos em Português. Os verbetes existem, mas são muito condensados.

Obviamente, a Antiguidade Clássica é o mundo greco-romano desde a antiguidade até a queda do Império Romano.

A antiguidade clássica (também a era clássica, o período clássico ou a idade clássica) é o longo período de história cultural centrado no mar Mediterrâneo, que compreende as civilizações interligadas da Grécia antiga e da Roma antiga, conhecida como o mundo greco-romano. É o período em que a sociedade grega e romana floresceu e exerceu grande influência em toda a Europa, África do Norte e sudoeste da Ásia.

Vamos tentar dar ênfase ao problema do Mal, mas é aconselhável dar uma olhada nessas civilizações porque elas tiveram uma forte influência em tudo que é cultural para o mundo ocidental, especialmente no Renascimento.

Um bom enquadramento para o assunto é notar que uma das transformações mais importantes na Antiguidade tardia foi a formação e evolução das religiões abraâmicas; Cristianismo, Judaísmo rabínico e, eventualmente, Islamismo

De acordo com a Tese de Pirenne, as subseqüentes invasões árabes marcaram o fim da Antiguidade tardia e o início da Idade Média.

Dê uma olhada em deuses e deusas romanos e deuses gregos e deusas gregas

Greek Gods and Goddesses

Roman gods and goddesses

Roman Gods and Goddesses

equivalent

Embora fossem os gregos quem primeiro colocou a questão da origem e da natureza do mal em termos estritamente filosóficos, eles conseguiram criar deuses, ou Deuses, como manifestações ambivalentes de um mesmo Deus. Essas qualidades contraditórias éticas e ontológicas (ou seja, relacionadas à sua existência) dos deuses indicam mais confusão do que uma tentativa de coincidir os opostos relacionados a eles.

Eles têm dois conceitos que indicam o caráter do deus, um ouranico ou celestial e o outro ctonico, do submundo (o inferno?) Sendo o ctonico mais frequentemente assimilado com o conceito de mal. Novamente, você não tem um verbete para ouranico, mas você pode ter uma tabela de comparação entre as qualidades.

Além disso, eles têm outro conjunto de conceitos, Theos e Daimon.

Interessante saber é que Theos é de qualquer maneira Deus e Daimon Daemon, a que convido a leitura do verbete. Como Rollo May percebeu, e nós já discutimos, Daimon, que é uma escrita alternativa para Damon, no dicionário é definido como uma divindade ou um ser sobrenatural de natureza entre deuses e humanos(na crença grega antiga). Também como espírito interno aos seres humanos ou assistente ou força inspiradora. E deve-se observar que seus sinônimos são numen, genius, genius loci, força inspiradora, espírito assistente, espírito tutelar, demonio, do qual você diz:

Deve ter sido um magnífico demônio que habitou o coração e a alma desse artista

 O rei dos deuses era Zeus Pater, na Grécia e Júpiter em Roma. Zeus, ou “pai do céu” em seu nome antigo, poderia trazer luzes, granizo, trovoadas e ventos, mas também gentilmente chuvas leves e férteis: daí o nome dele maimaktes, o colérico.
Em Creta, onde ele era Zeus Kuros, suas características eram decididamente ctônicas, mas foi Homero quem o fixou permanentemente na consciência clássica como uma deidade ourânica. Sua esposa, Hera, rainha dos deuses, tornou-se uma deusa do céu trazendo clima quente para culturas e tempestades destrutivas. Ela também foi ctônica e identificada com a deusa da Terra primordial Gaia, também deusa da fertilidade e da gravidez. Mas sua prole possuía terríveis naturezas, como Hepahistos, deus de explosões vulcânicas, conspiradas com espíritos das cavernas e das montanhas.
Interessante observar que a família continua, sendo que o filho de Hermes, Pan, nasceu cabeludo e parecido com cabra ou bode, com chifres e cascos e uma divindade fálica como o pai,. Ele representava desejo sexual, que pode ser criativo e destrutivo. Sua influência iconográfica (na aparência) sobre o Diabo como a conhecemos é enorme. A tradição medieval tornou possível a imagem de Pan juntar-se com a do Diabo, porque tem sua raiz na associação do Diabo com as divindades ctônicas da fertilidade, que foram rejeitadas pelos cristãos como demônios junto com outros deuses pagãos que foram particularmente temidos pela da associação entre instintos selvagens e com o frenesi sexual. A paixão sexual, que suspende a razão e conduz facilmente ao excesso, era alienante tanto para o racionalismo dos gregos quanto para o ascetismo dos cristãos. Era fácil assimilar um deus da sexualidade com o princípio do mal. A associação do ctônico com o sexo e o submundo, e, portanto, com a morte, selando a união.
Também é interessante observar que Hades, que era o governante do submundo, presidisse o sombrio e terrível reino das almas mortas e trouxesse a morte às culturas, animais e humanidade, casou-se com a gentil Perséfone, dona da primavera. Era (ou é) ela que na primavera, emergindo de sua prisão subterrânea, causa o surgimento do verde na terra. Mas foi ela que também emergiu para liderar os Erinyes, os terríveis espíritos da vingança, na sua impiedosa busca de vingança. Assim, as divindades do submundo, na Grécia como em outros lugares, trouxeram medo e esperança

O Mundo Inferior

De Linkedln learning

1-Hades

A região dos mortos era governada por um dos grandes deuses Olimpicos, Hades ou Plutão, e sua rainha, Persefone.

2-Tartarus

Tartarus e Erebus são algumas vezes duas visões do mundo infernal Tartarus. O mais profundo, contºem os filhos da terra.

3-Erebus

Erebus: Onde os mortos vão depois de morrer.

4-Acheron

O caminho para o Inferno é percorrido no Acheron, o rio da aflição, que desagua no Cocytus, o rio da lamentação.

5-Charon

Um velho barqueiro chamado Charon transporta as almas dos mortos pelas aguas para as margens mais distantes em direção a Tartarus

6-Cerberus

Guardando a entrada está Cerberus, o dragão de três cabeças em forma de cão que permite que todos espiritos entrem, mas nenhum retorne.

7-Rhadamanthys, Minos Alakos

Rhadamanthys, Minos e Alakos, são os três juizes que na chegada das almas passam as sentenças e enviam os maus para o tormento eterno e os bons para um lugar de bem aventurança chamado de Os Campos Elisios

8-Phlegethon

Phlegethon: O rio de fogo

9-Styx

Styx: O rio do juramento impossível de ser destruido

10-Lethe

Lethe: O rio do esquecimento

11-Erinyes

Os Erinnyes: O lugar onde são castigados os que praticaram o mal.

A mitologia em torno de todos esses personagens é muito longa para analisarmos aqui. Sobre tudo o que você possa imaginar que pode acontecer em um grupo de pessoas, sejam gregos ou romanos, ou o que quer que seja, haveria algum tipo de equivalente na saga dos deuses.

É básico para qualquer compreensão da religião grega que era uma religião viva, não padronizada e refinada pelas tradições literárias. Cada deus foi percebido como uma manifestação dos aspectos gentis e destrutivos da divindade. Esta ambivalência aparece na literatura, mitologia e filosofia gregas no período clássico. Homero não faz uma clara separação do bem e do mal e certamente não há hipostatização (tratar como uma substância distinta na realidade) de qualquer destas características. A vontade do Deus não é conhecida. Além dos homens e além dos deuses, existe uma força remota e impessoal chamada Moira que atribui a cada deus e a cada um a função adequada. Moira é completamente sem personalidade ou mesmo vontade consciente, é como um conceito “uma verdade sobre a disposição da Natureza”, a verdade é que cada pessoa tem um papel ordenado a desempenhar no mundo. Em uma palavra: Destino ..

Também é notável a forte semelhança em várias situações na literatura grega e romana, de Homero a Esquilo com o Livro de Jó da Bíblia.

Basicamente, Jeffrey Burton Russel diz, para Homero o mal consiste em violar a honra (momento) de um deus. Dê uma olhada na entrada na Wikipédia.

A teodiceia, na sua forma mais comum, é uma tentativa de responder à questão de por que um Deus bom permite a manifestação do mal e no final do período clássico, as dificuldades colocadas pela teodicéia grega tornaram-se evidentes no trabalho de Eurípides, onde o homem luta para dominar um universo irracional em que os deuses não representam nenhuma ordem.

Orfism 

Vamos dar uma olhada em Orfismo porque há uma conexão entre Orfismo e Dyonisos no pensamento de Platão, ou Platonismo e Pitágoras ou Pitagorismo, :

O orfismo era, ou pelo menos parece, uma religião paralela à religião grega. Há questões não resolvidas, quer sobre se já existisse como uma religião organizada, qual a relação exata com o culto de Dionysos ou até que ponto o seu dualismo era próprio ou importado. O mito central do Orfismo pode ter sido o mito de Dionysos e dos Titãs.

O Culto de Dyonisio

Os conceitos expostos aqui deveriam estar conectados com o conceito de Nietzsche Apolônio e Dionísio em The Birth of Tragedy para designar os dois princípios centrais na cultura grega, como ele vê. Uma vez que Nietzsche fez uma excelente contribuição para entender a presença do mal,  este artigo é uma espécie de contribuição para quem quer aprofundar o assunto. É uma pena que Erich Auerbach em Mimesis ou Dante Poeta do Mundo Secular não toque Nietzsche diretamente como mais de um estudioso apontou.

O mito central do Orfismo pode ter sido o mito de Dionysio e dos Titãs.
No início do mundo, Phanes era o andrógino que trazia todas as coisas à luz. Primeiro Phanes dá a luz a Ouranos, que é pai de Kronos, e pai de Zeus. Depois que Zeus derrota os Titãs, ele engole Phanes, levando assim para dentro de si mesmo o princípio original, tornando-se um deus criador e produzindo todas as coisas de novo, incluindo os Titãs. Enquanto isso, Zeus é pai de um filho, Dionysos. Odiando a Zeus e invejando a felicidade do bebê Dionísio, os Titãs se aproximam da criança, distraem sua atenção com um espelho e a apanham. Eles a devoram aos pedaços. Mas Athene resgata o coração do menino e o leva a Zeus, que o consome. Zeus agora tem relações sexuais com Semele, que dá origem de novo a Dionysos. Satisfeito com a ressurreição de seu filho, Zeus procede a punir seus assassinos, empurrando-os para cinzas com raios. Das cinzas dos titãs surge a raça da humanidade.
O mito é totalmente dualista. A humanidade tem uma natureza dualista, espiritual e material. A parte material de nossa natureza deriva dos Titãs, a parte espiritual de Dionisos que eles devoraram. Os ensinamentos de Pitágoras e os pitagóricos foram altamente influentes para o desenvolvimento da tradição dualista. Para os pitagóricos, a alma é imortal, a carne mortal. A alma está presa no corpo como prisioneira (soma sema), nossa tarefa na Terra é escapar da nossa prisão corporal por meio da purificação ritual.

Mas o dualismo encontrado nessas doutrinas é diferente do dualismo do Irã. O dualismo iraniano postulou um conflito entre dois poderes espirituais, um de luz e um da escuridão. O dualismo orphico postulou um conflito entre a alma divina e o maligno, corpo Titânico que a aprisionou. No orfismo, o dualismo da matéria e do espírito, corpo e alma, é primeiro claramente enunciado: sua influência sobre o pensamento cristão, gnóstico e medieval foi enorme e é um dos elementos mais importantes da história do Diabo. Na mesma proporção em que Dionísio era bom e o mal era assumido dos Titãs,  na medida em que a alma é boa e o corpo mau. Essa interpretação cresceu de forma constante ao longo do período helenístico, quando, influenciada pelo dualismo iraniano, a matéria e o corpo foram designados para o domínio do espírito maligno e da alma para o espírito do bem. Nesse ponto, os dois dualismos, orphicos e iranianos, uniram-se, e a idéia de que o corpo e a carne são obra do mal cósmico se implantou nas mentes judaica e cristã. A opinião da maioria tanto no judaísmo como no cristianismo sempre rejeitou essa idéia em sua forma explícita, mas, desde o gnosticismo, tem sido a fonte mais persistente de heresia. (Em Dante explorada no canto 10)
A doutrina de que o corpo era a prisão da alma fez com que os Orficos acreditassem na metempsicose, a transmigração das almas. Pode-se escapar da carne apenas através de uma série de encarnações durante as quais se pratica cuidadosamente a pureza ritual. O processo de reencarnação cessa quando a pureza perfeita é alcançada e é adiada por qualquer recaída na carnalidade. Os órficos abstiveram-se de carne tanto porque é carnal e porque um animal pode ser uma reencarnação de um ser humano. Sob a influência de Pitágoras, eles também se abstiveram de feijão, que eles consideravam como semente por excelência e, portanto, a raiz da carne.

 A pureza ritual do orfismo também foi associada ao culto de Dionísio, que era muito diferente. Festivais de Dionísio ocorriam à noite, símbolo da escuridão e do proibido. Eles costumavam ocorrer em uma caverna ou gruta, locais associados com umidade, fertilidade e poderes ctonicos. Os adoradores eram principalmente mulheres, Maenads ou Bacchantes, que eram liderados por um sacerdote masculino.
Como a pureza Orphic e o frenesi Dionysiaco existirem juntos? Ou em outros grupos, como gnósticos, cataristas, etc.? Jeffrey Burton Russel propõe uma série de respostas:
  •  Primeiro, a pureza orphica era ritual e não moral.
  • Em segundo lugar, a coexistência de moderação ascética e adoração frenética é comum na história das religiões e, psicologicamente, é uma manifestação previsível da sombra.
  • Em terceiro lugar, o êxtase frenético é freqüentemente uma maneira aceita de tirar o espírito para “fora” do corpo.
  • Em quarto lugar, e mais importante, é uma manifestação da coincidência dos opostos, da ambivalência que era subjacente a todo o pensamento humano, em particular sobre o que se pensava dos deuses.
Para Dionísio, como os outros deuses, é ambivalente. O filho de Zeus, símbolo do espírito contra o corpo, também é um deus de fertilidade com chifres. O benfeitor, Euergeus, é também Anthroporraistes, “triturador de homens”, e Omistes, “comedor de carne crua”, e monta em um navio preto. Acima de tudo, ele é Lusios ou Luaios, o grande e mais solto ou mais livre, que libera de todas as restrições e inibições. No período helenístico, tornou-se o andrógino perfeito, como o grande busto que esta no Museu Britânico  mostra. O orgulho pode ser percebido como um desejo de integração através do intercâmbio dos sexos. Por um lado, a oposição do espírito e do corpo acabou por fazer do Diabo “o senhor deste mundo”. Por outro lado, a orgia Dionisica tornou-se o modelo de teologia imputado aos gnósticos, cataristas e bruxas.
Estamos falando de várias centenas de anos e para nossos propósitos, eu prefiro usar outro critério para enquadrar esse assunto nesse período.
Alguns autores dividem a religião grega em três estágios, ou às vezes cinco, com expansão da terceira etapa. Essas etapas são as seguintes:
  • Primeiro, há a Euetheia primitiva ou a Era da Ignorância, antes que Zeus estivesse perturbando a mente dos homens, um estágio ao qual antropólogos e exploradores encontraram paralelos em todas as partes do mundo. Basicamente alguém (não tenho certeza se corretamente) foi definido como Estupidez Primordial (Dr. Preuss) (veja em alemão).
  • Em segundo lugar, há o estágio olímpico ou clássico, um estágio em que ocorre uma batalha difícil, cheio de idas e vindas, onde essa imprecisão primitiva foi reduzida a um tipo de ordem. Este é o palco dos grandes deuses olympianos, que dominavam a arte e a poesia, governavam a imaginação de Roma e da Grécia e prolongavam uma espécie de domínio romântico até a Idade Média. Muitos acreditam que este contexto não tem valor como religião, apenas como arte.
  • Em terceiro lugar, há o período helenístico, indo aproximadamente de Platão a São Paulo e aos gnósticos anteriores. Os sucessores de Aristóteles produziram mais uma escola de ciência progressiva, e os de Platão uma escola de ceticismo refinado. O lado religioso do pensamento de Platão demoraria um tempo para atingir seu pleno poder, que aconteceu no século III dC, na época de Plotino.
 Para Aristóteles levaria ainda mais tempo, pois foi realmente exposto por Santo Tomás de Aquino no século 13 dC.
Foi uma surpresa para mim, mas eu confirmei por toda Internet, Platão não explorou sistematicamente o problema da origem do mal. No máximo, há citações dele dizendo o óbvio, um pensamento passageiro. Sócrates ia mais ao ponto: para ele, o mal era uma falha no conhecimento prático de como fazer o bem. É interessante observar que a percepção de Platão da oposição entre o espírito, o assento ou a razão e o corpo, o assento das emoções e, a partir daí, a concepção do corpo e da alma como manifestações dos princípios metafísicos do espírito e da matéria, sendo atribuída a bondade ao espírito e ao mal à matéria, que é um dualismo incoerente, porem acabou ficando mais coerente através de seus seguidores. O desenvolvimento do conceito do Diabo deve muito, se não quase tudo, diretamente a Platão, graças às permutações de seu pensamento no trabalho dos platonistas, especialmente Plotinus.. O pensamento de Aristóteles não admitia um princípio do mal, que é uma demonstração de que Platão tinha opositores.
No lado dos romanos, o Mithraism merece menção. Talvez esteja melhor explicado aqui.
"Tauroctony" - Mithras slaying a bull

 

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